Vida Subterrânea

Pedro Cardoso (texto) e Francisco Rasteiro (fotografia)
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Uma terceira diferença é a baixa quantidade de energia (principalmente na forma de matéria orgânica) de que uma comunidade cavernícola dispõe para seu usufruto. Qualquer ecossistema necessita de um input regular de energia para se manter. Em habitats de superfície essa energia é fornecida pela luz do Sol, energia essa que é aproveitada pelas plantas através da fotossíntese, que por sua vez são o suporte de toda a restante vida. Num habitat cavernícola não há luz e consequentemente não há fotossíntese ou plantas. Em zonas próximas à superfície o material orgânico consegue chegar, seja através do ar, de escorrências, ou das próprias raízes que chegam a profundidades consideráveis. A zonas de profundidade já a matéria orgânica não consegue chegar de forma directa. E no entanto a vida mantém-se. Um dos principais inputs de energia passa a ser, por exemplo, o guano, não mais que excrementos de morcegos. Enquanto este for em quantidade suficiente, e havendo oportunidade, muitos organismos detritívoros podem-se alimentar de tão rica fonte de energia. E outros organismos surgem que deles se alimentam, criando uma autêntica comunidade subterrânea baseada no guano. O mesmo pode acontecer quando rios se infiltram no subsolo trazendo consigo bastante matéria orgânica ou toda uma variedade de organismos que podem manter um verdadeiro ecossistema subterrâneo. Os troglóbios estão assim sempre dependentes do exterior, mesmo que não consigam sobreviver fora do ambiente cavernícola. O ambiente cavernícola, ao contrário do que se possa pensar, não é estanque, e por esta razão o que quer que aconteça no exterior, de positivo ou negativo em termos ambientais, afecta necessariamente o meio subterrâneo, um meio não estanque mas sim dependente. A baixa disponibilidade de recursos é ainda responsável por um metabolismo reduzido de muitos dos organismos cavernícolas, visto que estes têm de poupar toda a energia possível, e muitas vezes são sujeitos a longos períodos sem um input suficiente de energia que permita manter a comunidade em total actividade. Um baixo metabolismo implica um crescimento lento de cada indivíduo o que obriga a uma grande longevidade média de muitas das espécies.

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