Ecologia alimentar de herbívoros

Miguel Bugalho
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Os herbívoros têm um papel fundamental nos ecossistemas. Por mais parecida que pareça, a forma como se alimentam é muito diferente de espécie para espécie e mesmo de macho para fêmea, dê uma espreitadela às suas estratégias alimentares.

A alimentação é uma das actividades mais importante da ecologia de qualquer organismo vivo. Pela alimentação os seres vivos adquirem a energia necessária ao seu funcionamento e reprodução. A actividade alimentar implica dispêndio de tempo, na procura do alimento, que poderia ser gasto noutras actividades. Um animal que consuma muito tempo na procura de alimento terá menos tempo para se dedicar, por exemplo, aos cuidados com crias ou à procura de parceiro reprodutor.

No caso de animais carnívoros, geralmente a procura das presas implica gastos de tempo consideráveis. O caso dos animais herbívoros parece numa primeira análise uma excepção. Em condições naturais, um herbívoro está rodeado por uma aparente "super-abundância" de alimento: a vegetação. O tempo gasto na procura de alimento, comparativamente com um carnívoro é teoricamente mais baixo, mas o tempo de "processamento" e digestão desse alimento, devido às características nutritivas das plantas, é mais elevado.

O tecido vegetal, em comparação com o animal, tem baixos níveis proteícos e uma proporção elevada de compostos estruturais não digeríveis ou de muito baixa digestibilidade. De entre os compostos presentes no tecido vegetal, a celulose e compostos derivados desta, são dos mais abundantes. Os mamíferos não têm capacidade para digerir a celulose por não possuírem as enzimas adequadas ao processamento deste composto químico. Os mamíferos herbívoros dependem, para a digestão de alimento vegetal, de populações microbianas que se encontram no aparelho digestivo. São estes microorganismos que através da fermentação degradam o alimento vegetal que chega ao aparelho digestivo dos herbívoros.

No grupo dos herbívoros, os ruminantes formam um sub-grupo importante. Caracterizam-se por ter um estômago compartimentado e por fazerem ruminação do alimento. O alimento é inicialmente ingerido e mais tarde regurgitado. Novamente na boca, o alimento vegetal é triturado e reduzido a dimensões mais pequenas que irão ser fermentadas pelas populações microbianas existentes num dos compartimentos do estômago - o rúmen. Ao processo de mastigação do alimento após a primeira ingestão dá-se o nome de ruminação.

Durante a fermentação do alimento vegetal pelas populações de microorganismos, são produzidos compostos que o ruminante vai usar como fonte de energia. As populações de microorganismos sobrevivem e multiplicam-se no rúmen também elas pela utilização dos produtos da fermentação. Curiosamente são as próprias populações de microorganismos que constituem a fonte de proteína na alimentação dos ruminantes!

As plantas não constituem um tipo de alimento completamente homógeneo. Existem plantas com maiores proporções de estruturas de suporte (caule, ramos, raminhos) do que outras. Estas estruturas são geralmente ricas em celulose mas possuem um teor elevado de outros compostos químicos não digestíveis para as populações microbianas, como é o caso da lenhina. Em termos de valor nutritivo para ruminantes as plantas podem ser diferenciadas no grupo das ervas e no grupo dos arbustos e árvores. Este último grupo é caracterizado por plantas de maiores dimensões e proporção elevada em estruturas de suporte.

A família das gramíneas é uma das mais importantes e numerosa dentro do grupo das ervas. Nesta família as células vegetais são constituídas por uma parede celular espessa e rica em celulose que protege um conteúdo celular em que abundam compostos proteicos e minerais. Embora os teores de celulose variem com o tipo de estrutura, quase todas as partes das gramíneas são pelo menos parcialmente digestíveis. No caso dos arbustos e árvores as paredes celulares não são tão espessas e ricas em celulose e têm proporcionalmente maiores concentrações de lenhina. Neste caso os tecidos nutritivos da planta restringem-se apenas a algumas partes: rebentos, folhas, frutos. O restante é tecido de suporte com valor nutritivo quase nulo: tronco, ramos e raminhos.

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