Ecologia das Turfeiras de Sphagnum dos Açores

Cândida Mendes* & Eduardo Dias - Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores. GEVA
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Sendo pouco menos do que desconhecidas para o Mundo, e mesmo dentro do nosso País, as turfeiras dos Açores são formações de uma elevada importância ecológica e ambiental, afectando significativamente os recursos hídricos das ilhas onde ocorrem.

Turfeiras são genericamente ecossistemas em que o nível da água se encontra à superfície ou perto desta e em que o encharcamento é suficientemente prolongado para promover processos típicos de solos mal drenados como o desenvolvimento de vegetação hidrófitica (adaptada a condições de encharcamento) e a promoção da formação de turfa, que é um tipo de substrato pedológico que se desenvolve em condições de encharcamento e anóxia (ausência de oxigénio).

As turfeiras dos Açores são formações ainda bastante desconhecidas para o mundo e mesmo dentro do país, para onde a referência à existência destes ecossistemas, se restringe a pequenos mosaicos em áreas montanhosas de Portugal continental. O desenvolvimento de estudos e a sua publicação são factores primordiais para conhecer a riqueza biológica dos Açores, nomeadamente em termos de zonas húmidas e espécies associadas pelo que uma série de estudos de pormenor estão a decorrer sob a responsabilidade do GEVA, na Universidade dos Açores. De facto os Açores são uma área primordial no país, não só em termos de extensão de zonas húmidas mas também em diversidade tipológica e grau de conservação das mesmas. Pode-se mesmo dizer que as zonas altas da maioria das ilhas do arquipélago são ocupadas por vegetação húmida, predominantemente turfeiras (Foto 1), devido à entrada de grandes volumes de água (precipitação e intercepção dos nevoeiros) e à presença de plácico (Foto 2) (cujas características promovem a impermeabilização do substrato).


Foto 1. Paisagem típica das zonas altas das ilhas dos Açores. No caso, uma turfeira de Sphagnum. Ilha Terceira. Base de dados fotográfico do GEVA.


Foto 2. Horizonte ferro-magnesiano plácico, promotor de impermeabilização dos solos e um dos grandes responsáveis pela grande extensão de zonas húmidas em altitude. Ilha Terceira. Base de dados fotográfico do GEVA.

As plantas típicas de zonas turfosas, tais como as espécies do género Sphagnum (Foto 3) tiveram a sua origem nas regiões Atlânticas do Norte da Europa, chegando aos Açores no período pós glaciações por intermédio de aves (epizoocoria). De acordo com uma série de condições ambientais, tais como níveis de precipitação, topografia do terreno, grau de naturalidade, desenvolvem-se tipologias distintas de turfeiras. Este trabalho pretende caracterizar em termos de ecologia uma tipologia que são as turfeiras dominadas por Sphagnum, que ocorrem normalmente nas situações de bacias endorreicas (Foto 4). Os briófitos mencionados são inconfundíveis, basta ter visto uma espécie ou examinado ao microscópio algum filídeo (tipo folha) para se poder dizer se é ou não um Sphagnum. Distingue-se dos outros musgos pelo agrupamento dos seus ramos em fascículos (Foto 5).


Foto 3. Comunidade de Sphagnum, género de briófitos dominante nas turfeiras dos Açores. Ilha de S. Miguel. Base de dados fotográfico do GEVA. 


Foto 4. Turfeira em vale endorreico. Uma das situações mais típicas onde se desenvolvem turfeiras de Sphagnum. Ilha Terceira. Base de dados fotográfico do GEVA.

Uma compreensão básica da ecologia das plantas do género Sphagnum spp. será útil para compreender o funcionamento, bem como a dinâmica e ecologia de uma turfeira dominada por estes briófitos. Estas formações em termos ecológicos, caracterizam-se por reter grandes quantidades de águas sendo estas bastante ácidas e pobres em nutrientes disponíveis.

 

Foto 5. Espécime do género Sphagnum (no caso S. cappilifolium). Base de dados fotográfico do GEVA.



A grande capacidade de absorção e retenção de água (Foto 6) e a sua cedência gradual após grandes chuvadas é de grande importância para uma série de factores a nível da paisagem tais como na minimização da erosão e no controle dos caudais das ribeiras. Contribui também para a recarga dos aquíferos locais. Esta capacidade deve-se à estrutura morfológica dos Sphagnum que podem suportar até 20 vezes o seu peso seco em água. Em secção transversal, um corte duma folha de Sphagnum indica dois tipos de células (Foto 7), pequenas células clorofilinas (fotossintéticas, importantes para a fotossíntese e respiração) e células hialinas (largas e incolores) com poros nas paredes, através dos quais a água se move. Esta característica de absorção e retenção é importante para a planta e para o crescimento da turfeira uma vez que estes musgos não possuem raízes para absorver solutos do solo, ou tecidos condutores internos para o transporte de água (Daniels e Eddy, 1985). Esta capacidade de retenção de água, por parte do Sphagnum vivo que cresce na superfície da turfeira, acrescentando ao movimento da água por capilaridade dentro da turfa, assegura que a toalha de água seja mantida um pouco abaixo da superfície ou à superfície da turfeira durante todo a ano. As turfeiras constituem assim verdadeiros reservatórios de água (Foto 8), se tivermos em conta que os recursos em ilhas são bastante limitados a salvaguarda destas formações contribuem sobremaneira para a perpetuação dos recursos hídricos locais. Realça-se que em 7 das nove ilhas dos Açores as turfeiras são as formações predominantes nas zonas altas das ilhas. As excepções são as ilhas de Sta Maria e Graciosa, cujos níveis de precipitação e nevoeiros (altitude inferior às restantes) não propícia as condições ambientais base para a formação de grandes extensões de zonas húmidas.

Além da sua capacidade de absorver e reter água as turfeiras apresentam águas bastante ácidas. Na maioria dos ecossistemas, o pH encontra-se próximo da neutralidade, no entanto em zonas húmidas dominadas por estes briófitos, o pH do meio é bastante ácido, por vezes atinge valores abaixo dos 3. Estudos efectuados neste tipo de turfeiras nos Açores permitiram verificar que no Verão o pH médio para este tipo de turfeiras ronda os 3,5 e no Inverno os 5,5 no Verão (Mendes & Dias, 2002). Estas diferenças ocorrem porque a quantidade de água do meio altera a concentração de hidrogeniões e as próprias espécies dominantes em cada estação apresentam variadas capacidades de troca catiónica. Esta capacidade deve-se à troca de iões hidrogénio (H+) por outros iões tais como potássio, sódio, cálcio e magnésio (k+, Na+, Ca2+ e Mg2+ respectivamente) (McQueen, 1990). O Sphagnum é capaz de se desenvolver particularmente bem em situações ombrotróficas (águas provenientes da chuva e pobres em nutrientes) como resultado da sua relativamente alta capacidade de troca catiónica (Rieley e Page, 1990). Esta capacidade do Sphagnum para acidificar o meio tem uma série de vantagens, em primeiro lugar as plantas usam esta troca como meio de obter nutrientes para o seu crescimento, e que são em muito pequena quantidade no seu meio (McQueen, 1990). Em segundo lugar, criando um habitat ácido, o Sphagnum “cria” um ambiente ideal para si próprio onde a competição com outras plantas é muito pequena, pois a maioria das plantas vasculares não tolera níveis baixos de nutrientes ou ambientes ácidos e húmidos.


Foto 6. Charcos associados a formações de turfeiras. Ilha Terceira. Base de dados fotográfico do GEVA.


Foto 7. Corte transversal de uma folha de Sphagnum spp. onde se podem distinguir dois tipos de células: A – Células Hialinas, B – Células Clorofilinas. Base de dados fotográfico do GEVA. 


Foto 8. Turfeiras como grandes reservatórios de água. Ilha das Flores. Base de dados fotográfico do GEVA.

 Esta acidificação do meio que aparentemente parece favorecer apenas o Sphagnum, presta, um serviço de extrema importância às populações das ilhas, as turfeiras transformam-se em verdadeiros filtros de purificação de água uma vez que a retenção, na sua estrutura, de iões (por troca por hidrogeniões) tem como efeito secundário a limpeza da água.

Esperamos que os aspectos aqui focados acerca das turfeiras de Sphagnum contribuam não só para o conhecimento da sua ecologia mas que sejam um abrir de uma porta para a compreensão da sua importância para que sejam cada vez mais os esforços de conservação.

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