Conservação dos répteis no Noroeste de Portugal

José Carlos Brito
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Áreas Prioritárias para a Conservação

Apresentam-se na Fig. 6 as quadrículas prioritárias para a conservação dos répteis, totalizando 67 quadrículas (12.9% da área de estudo). Estas quadrículas foram agrupadas constituindo quatro áreas de maior prioridade: (1) vale do rio Gerês / Ermida / Calcedónia / Mata de Albergaria / Borrageiro / vale de Torneiros; (2) barragem de Paradela / Pitões das Júnias / Covelães / Montalegre; (3) Branda Aveleira / Gavieria / Rouças / Sr.ª da Peneda / Branda da Bouça dos Homens e (4) Ameijoeira / Castro Laboreiro / Portelinha.


Figura 6 - Quadrículas prioritárias (Nível I com maior prioridade) para a conservação dos répteis na área de estudo, com a definição de quatro áreas prioritárias.


Verifica-se que 81% das quadrículas consideradas como prioritárias estão dentro da área do PNPG e 2% dentro da área do Parque Natural Baixa-Limia - S. Xurés (PNBLSX), na Galiza, ficando apenas 17% fora destas Áreas Protegidas (APs). Dos 81% das quadrículas que estão dentro do PNPG, cerca de 27% estão ainda incluídas na Área de Ambiente Natural (AAN) do PNPG. Estes valores – mais de 83% das quadrículas prioritárias estão incluídas nas APs – dão-nos certa garantia de que, pelo menos do ponto de vista teórico, a conservação, a longo prazo, dos répteis nesta região estará relativamente assegurada. Refira-se ainda, a título de curiosidade, que as quadrículas prioritárias representam 23% da área do PNPG e 27.3% da AAN.

Áreas com Risco de Extinção de Espécies

Desenvolveu-se um modelo em que se pretende identificar as quadrículas UTM 1x1km onde existam riscos de extinção das populações dos répteis (Fig. 7A). Foram identificadas 430 quadrículas onde existe elevado risco de extinção de espécies (Nível I), o que representa 22% do total da região. As quadrículas com Nível II representam 25% da área, as de Nível III cerca de 34%, as de risco reduzido (Nível IV) cerca de 7% e sem risco (de acordo com as variáveis consideradas) 12%. Verifica-se que as áreas com maior risco (Nível I) localizam-se ao longo dos vales do principais rios: Vez, Lima, Homem, Gerês, Cávado e Rabagão.


Figura 7 - (A) Quadrículas identificadas como possuindo risco de extinção dos répteis na região, representando o Nível I as quadrículas com maior risco; (B) Sobreposição existente entre as quadrículas identificadas como possuindo risco de extinção elevado e médio (Níveis I e II), com as quadrículas identificados como prioritárias para a conservação dos répteis.

 

Na Fig. 7B apresenta-se a sobreposição existente entre as quadrículas consideradas como prioritárias para a conservação dos répteis na região e as áreas com maior risco de extinção (Níveis I e II). Este tipo de análise permite identificar as áreas com prioridade de conservação, que se localizam em áreas com problemas de conservação. Verifica-se que 22% das quadrículas consideradas como prioritárias se encontra em área com elevado risco de extinção (Nível I) e 22% em áreas de risco de Nível II. Estes valores indicam que quase metade (44%) das quadrículas identificadas como prioritárias para a conservação dos répteis ocorrem em áreas com risco de extinção considerado médio e elevado. Estas áreas correspondem principalmente aos cursos inferiores dos vales dos rios Homem e Gerês – neste caso devido, sobretudo, ao elevado grau de humanização, ao facto de serem áreas cobertas por acácias ou áreas susceptíveis de serem submersas por barragens – e ao curso superior do vale do rio Cávado – neste caso devido, principalmente, ao elevado grau de área coberta por barragens e à presença de estradas de grandes dimensões.

Gestão das Populações e dos Habitat

As principais acções que podem ser efectuadas para a gestão das populações e dos habitat dos répteis do PNPG, e mais especificamente das víboras, são as seguintes:

1. Conservação dos Habitat

A conservação dos habitat surge como a principal medida de conservação, não só para os répteis, como para todas as outras espécies de Vertebrados. Neste sentido será necessário:

- Empreender acções mais eficazes na prevenção dos Incêndios Florestais. Esta é uma das principais medidas que se pode promover para a conservação dos répteis, pois os incêndios constituem, provavelmente, o maior factor de ameaça às populações e habitat dos répteis.

- Conservar, na medida do possível, as Sebes e Muros de Pedra, que servem para delimitar os lameiros e terrenos agrícolas. Estes locais constituem um elemento agrícola tradicional e são um habitat importante para muitas espécies, pois providenciam refúgio e locais de alimentação.

- Conservar as Massas Florestais Autóctones. Algumas populações de répteis dependem de determinados enclaves, onde subsistem bosques autóctones.

- Conservar os Meios Montanhosos, especialmente os matos, bosques e zonas de afloramentos rochosos, pois constituem meios onde existem determinadas espécies de répteis.

- Procurar manter, tanto quanto possível, as Práticas Agrícolas Tradicionais. O corte equilibrado de madeiras nas florestas é uma condição essencial para a manutenção de habitat adequados para os répteis, pois criam locais propícios para a sua termorregulação, além do que isto constitui uma medida de prevenção dos incêndios florestais. Nos locais onde a vegetação arbustiva tenha crescido exageradamente, deverão ser efectuados cortes regulares e periódicos, que proporcionarão melhores condições de insolação, o que é benéfico para a termorregulação destas espécies. O corte dos fenos de uma forma tradicional deveria também ser estimulada, embora se reconheça a dificuldade de tal se conseguir. Mais fácil seria talvez procurar que as máquinas industriais cortassem o feno ligeiramente a maior altura em relação ao solo. Esta medida beneficiaria todos os répteis que existem em lameiros e prados, mas sobretudo o Licranço, o Fura-pastos e a Víbora-de-Seoane.

- Manter o Caudal Ecológico nas Barragens. Esta medida beneficiaria todos os répteis aquáticos e ripícolas, e.g. o Cágado-de-carapaça-estriada, Lagarto-de-água, Cobra-de-água-viperina e a Cobra-de-água-de-colar, assim como todos os outros grupos de espécies que habitam na água ou nas suas margens – peixes, anfíbios e algumas espécies de aves e mamíferos.

2.Controle do Comércio de Cabeças de Víbora.

Embora este comércio tenha diminuído em relação aos anos 70 e 80, continua no entanto a existir em plena área do PNPG. Propõem-se medidas activas de fiscalização no terreno, com o controle dos pastores e outros indivíduos que se dirijam frequentemente à serra, assim como inspecções de cafés e vendedores de chá na vila do Gerês, realizadas por funcionários da Divisão de Aplicação de Convenções (DAC) do Instituto da Conservação da Natureza. Estas acções terão, no entanto, que ser acompanhadas por adequadas campanhas de sensibilização e educação ambiental.

3. Controle do Usos Indiscriminado de Produtos Fitossanitários Agrícolas

O controle da utilização de insecticidas e herbicidas agrícolas também constitui uma medida necessária, não só para proteger os répteis, mas também outras espécies insectívoras, como os anfíbios, micro-mamíferos e muitas espécies de aves.


4.Controle da Introdução de Espécies Exóticas.

Outra medida necessária é a do controle da libertação de espécies exóticas na Natureza. A venda maciça de algumas espécies exóticas, como a Tartaruga-da-Flórida, dá azo a que muitos exemplares fujam ou sejam posteriormente libertados, constituindo sérios factores de perturbação para as populações locais. Esta espécie, por exemplo, pode afastar, por competição directa, os cágados autóctones, para além de que as espécies exóticas podem ser reservatórios de doenças que se propagam às espécies nativas. Assim, seria necessário desenvolver campanhas de sensibilização e informação pública, para evitar a libertação destas espécies, no caso das tartarugas.

5. Realização de Estudos sobre o Estado de Conservação de Determinadas Espécies.

Existe um profundo desconhecimento sobre o estado de conservação da maioria das espécies de répteis a nível mundial. Uma medida necessária para obviar esta situação seria a realização de estudos do estado de conservação e identificação dos principais factores que ameaçam as espécies. No PNPG existem quatro espécies com área de distribuição reduzida ou com populações provavelmente de pequenas dimensões, que são os principais candidatos à realização destes estudos: o Cágado-de-carapaça-estriada, a Osga-comum, o Fura-pastos-ibérico e a Cobra-cega.

6. Desenvolvimento de Campanhas de Informação e Educação Ambiental.

Esta é uma medida fundamental para a conservação a longo prazo destas espécies. É necessário o desenvolvimento de campanhas de informação e de educação ambiental, para se evitar a perseguição directa que sofrem os répteis. Nas áreas que rodeiam o Gerês, estas campanhas deverão ter maior incidência no caso das Víboras, por forma a que no futuro seja possível eliminar o ainda próspero comércio de cabeças destes animais.

Na Mata de Albergaria, e no caso particular das víboras, preconiza-se ainda a colocação de placas informativas ou de aviso destinadas aos visitantes, assinalando-se a presença destas espécies, cuidados a ter e outras informações sobre a sua biologia e interesse científico. Pode argumentar-se que estes sinais terão, possivelmente, um resultado negativo, uma vez que podem também alertar eventuais coleccionadores ou caçadores. No entanto, sendo a Mata de Albergaria uma zona onde se caçam víboras desde há várias décadas, os coleccionadores ou caçadores “já sabem” da sua existência neste local, pelo que este problema não seria de grande relevância. Assim, placas com informação geral sobre a presença da espécie, alertando para o seu estatuto legal de protecção (ilegalidade de captura, posse ou venda) e conselhos para o caso de ocorrerem mordeduras (Fig. 8), poderiam beneficiar a sua conservação.


Figura 8 - Exemplo de uma placa de sinalização para a presença de víboras.

 


7. Desenvolvimento de Medidas para se evitarem os Atropelamentos.

A principal medida é a Educação Ambiental, que pode ser realizada por sessões nas autarquias, nas associações culturais locais públicas ou privadas, em escolas, principalmente Primárias e Preparatórias, e através da edição de folhetos que alertem para o problema. Adicionalmente, a sinalização e a eventual construção de barreiras que impeçam os répteis de chegaram às estradas podem ser consideradas para as áreas em que foram detectados mais répteis atropelados ou onde a intensidade de tráfego é mais elevada, como por exemplo na Mata de Albergaria.

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