A alimentação do texugo na Serra de Grândola

Filipa Loureiro e Miguel Rosalino
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Uma vez que os dejectos foram recolhidos quinzenalmente, foi possível averiguar a existência de diferenças na alimentação do texugo ao longo do tempo e nas diferentes estações do ano. Observou-se que, de um modo geral, o Inverno e a Primavera apresentaram resultados muito semelhantes, havendo um grande consumo de artrópodes. No Verão, são os frutos os mais consumidos. De momento, os dados relativos ao Outono não estão disponíveis, por se encontrarem ainda em fase de processamento.



Tentou-se, ainda, averiguar a existência de diferenças na alimentação dos texugos dos diferentes complexos de tocas, mas não se chegou a nenhuma conclusão. Aparentemente, nesta área, a dieta dos diferentes grupos sociais é muito semelhante.

A avaliar pela diversidade de grupos de artrópodes ingeridos (de pequeno tamanho e aleatoriamente distribuídos) estes devem ser consumidos de um modo oportunístico, sendo encontrados acidentalmente durante as actividade de exploração. Pelo contrário, os frutos (de grande tamanho e concentrados em zonas específicas e previsíveis) provavelmente são procurados, tal como é sugerido pela coincidência das épocas de amadurecimento e a sua ocorrência nas fezes (Rodríguez e Delibes 1992).



Kruuk (1989) afirma que “se os elefantes vivessem na Europa, seria muito provável que mais tarde ou mais cedo, passassem a fazer parte de dieta do texugo”. Esta frase por si só dá a ideia da grande variedade de alimentos que este carnívoro consome e do seu comportamento oportunista. Assim, a explicação mais simples para a dieta do texugo é que o consumo de diferentes alimentos é determinado primariamente pela suas vantagens relativas, isto é, pelo balanço entre o benefício nutricional deles derivado e o custo em termos de tempo e energia necessários para os encontrar e consumir (Roper 1994). Outros factores, como a novidade, o paladar e o hábito, também afectam a selecção alimentar, mas a sua importância é provavelmente menor (Mellgren e Roper 1986; Lüps, Roper e Stocker 1987). Parece razoável sugerir que, tendo em conta os resultados acima mencionados, o texugo parece ajustar-se às flutuações dos seus recursos, alterando a sua técnica exploratória e/ou a sua selecção alimentar, de modo a maximizar a ingestão dos alimentos disponíveis, comportando-se assim como um generalista e não como um especialista. Por outras palavras, na Serra de Grândola, os texugos alimentam-se dos recursos que estiverem mais prontamente disponíveis num determinado local, a dada altura do ano.

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