A alimentação do texugo na Serra de Grândola

Filipa Loureiro e Miguel Rosalino
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A determinação da dieta do texugo foi realizado na Herdade da Ribeira Abaixo (Estação de Campo do Centro de Biologia Ambiental), na Serra de Grândola. Esta serra inclui-se numa das mais vastas áreas de distribuição homogénea de montado, e alberga uma comunidade de carnívoros bastante rica e diversificada. Os montados de sobro e azinho não só representam um dos grupos de habitats mais importantes para a conservação da fauna silvestre portuguesa, como possuem grandes potencialidades de valorização económica, nomeadamente no campo da cinegética (Palma et al. 1986).



Iniciou-se, então, o trabalho com a procura de indícios de presença de texugos na área de estudo. Estes animais vivem em grupos sociais no subsolo, num complexo sistema de tocas que eles próprios escavam (Roper 1992; Neal e Cheeseman, 1996), e defecam, urinam e efectuam marcações odoríferas em latrinas que parecem ter funções territoriais (Roper et al. 1993). As latrinas consistem em pequenos buracos no solo, com cerca de 10 cm de profundidade, podendo encontrar-se muito próximas dos complexos de tocas ou estrategicamente localizadas nos limites do território do grupo social (Neal e Cheeseman 1996). Assim, durante esta prospecção inicial, procuraram-se principalmente tocas e latrinas de texugos. As latrinas descobertas foram marcadas e numeradas e, posteriormente, foram visitadas quinzenalmente, por forma a recolher-se o seu conteúdo. Os dejectos recolhidos foram levados para um laboratório, onde foram posteriormente secos numa estufa e desagregados, de modo a separar os restos alimentares não consumidos. Entre estes foi possível encontrar asas e patas de insectos, restos de larvas, dentes de roedores, pêlos de mamíferos, ossos de répteis e anfíbios, sementes de frutos, etc. É a partir destes restos que se identificam os alimentos consumidos, da forma mais específica que for possível.

Observou-se que o texugo inclui na sua dieta uma grande variedade de recursos na Serra de Grândola, tendo sido identificados, pelo menos, 55 tipos de alimentos diferentes. Os frutos e os artrópodes (principalmente insectos) constituem a base da alimentação deste animal, correspondendo a cerca de 90 % do número de alimentos ingeridos. Os mamíferos são a terceira classe de presa mais consumida, com cerca de 2%, distribuindo-se a restante percentagem por diversas categorias: anelídeos, moluscos, anfíbios, répteis e aves. Entre os frutos mais consumidos, são de destacar as pêras, as azeitonas e as bolotas. Em relação aos artrópodes, os grilos, os coleópteros (escaravelhos) e as larvas são os preferidos. Os ratos, especialmente os ratos cegos mediterrânicos, são os mamíferos que sofrem maior predação.

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