Por terras de Pitões à descoberta da Serra do Gerês

Manuel Nunes (texto) e Jorge Nunes (fotografia)
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Partindo da vila raiana de Montalegre e caminhando até aos relevos alterosos e agrestes da Serra do Gerês, convidamo-lo a acompanhar um percurso pedestre onde há muito para se surpreender a cada passo.

 

Numa paisagem que o tempo perpetuou, emoldurada pelas planuras verdes da Mourela, encontra-se a aldeia de Pitões das Júnias. Palco de ancestrais tradições que mergulham fundo nas raízes culturais celtas, Pitões é a porta de entrada no território selvagem das serranias agrestes e despidas da serra do Gerês.

Num desses dias primaveris, em que os deuses, aparentemente zangados com o género humano se vingam com esporádicos aguaceiros diluvianos, soltamos amarras da vila raiana de Montalegre e navegamos pelas estradas desertas do planalto Barrosão, rumo à aldeia de Pitões das Júnias. Encravada no sopé dos relevos alterosos e agrestes da serra do Gerês, Pitões das Júnias, tal como outras aldeias do Barroso, mantém viva uma cultura ancestral assente no modo de vida agro-pastoril da sua comunidade. Talvez por isso, Pitões nos tenha recebido em silêncio, na pacatez própria de quem abraça o dia ao romper da aurora para se entregar às lides da lavoura. Na verdade, entrar em Pitões das Júnias, tal como em muitas aldeias do Barroso, é percorrer as ruelas de uma cultura ancestral, assente no modo de vida agro-pastoril, que o corrupio dos anos perpetuou nesta terra, simultaneamente bela e tenebrosa, feita de paisagens que deslumbram e, no entanto, intimidam a quem de longe lhes deita o olhar. Sondar-lhe o casario e saborear o trato afável das gentes é, ainda, recuar a um período, não muito distante, em que o dia-a-dia no “país Barrosão” se fazia do comunitarismo, das vezeiras, das segas, das chegas de bois, mas também dos bailes ao entardecer e dos serões regados com malgas de vinho frio.

 

Deixamos a aldeia entregue à melancolia da manhã e, ladeados por muros de pedra, encetamos a “grande jornada”. Uma calçada gasta e inundada por um ribeiro atrevido orienta-nos para o vale do Beredo. À nossa frente, a toda a largueza do horizonte, avistam-se as cumeadas agrestes e nuas da serra do Gerês, que a norte marcam a linha de fronteira com Espanha. Mais abaixo, o vale do Beredo com a sua frondosa mata, submete-se à serrania vigilante que se impertiga em tons cinzentos e agrestes contrastando com o verde nativo do imenso carvalhal. E no coração deste retrato quase idílico, um ponto branco sobressai, encrostado numa fraga no sentido do sol-poente: a capelinha de São João, objecto, ainda hoje, de uma extraordinária romaria anual.

  

Com os olhos postos na capelinha - paragem obrigatória para estes peregrinos das alturas - caminhamos pelas primeiras ladeiras de terreno de cultivo. As estreitas parcelas de terra, cobertas de erva fresca, são a nossa primeira companhia até alcançarmos a penumbra dos carvalhais da meia encosta. Num muro, dos tantos que retalham a encosta, um chasco-cinzento (Oenanthe oenanthe) macho, talvez com o ninho por perto, desafia a nossa perícia fotográfica, saltitando habilmente de pedra em pedra lançando assobios estridentes e intimidativos. Enquanto isso, o carreiro para o vale, largo e lajeado, rasga a encosta em ziguezagues sucessivos, serpenteando entre os lameiros e atenuando o desnível que cresce a cada passo.

 

Finalmente a mata. Maioritariamente constituída por carvalho-negral (Quercus pyrenaica), a mata do Beredo alberga outras espécies arbóreas como o carvalho-roble (Quercus robur), o freixo (Fraxinus angustifolia), a bétula (Betula celtiberica) e o azereiro (Prunus lusitanica ssp. lusitanica), para além de um luxuriante sub-bosque onde o azevinho (Ilex aquifolium), com a sua folhagem denticulada característica, partilha o espaço com a aveleira (Corylus avellana) e o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa). Sem grande esforço alcança-se o fundo do vale. Para além do permanente muralhar das águas e do canto distintivo de alguns passeriformes ocultos entre a frondosa ramalhia, como o Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula), apenas um profundo silêncio acolhe os raros viandantes. Erguendo o olhar por entre os carvalhos altos, uma nesga de céu revela, lá nas alturas, a Fraga de São João, o próximo ponto de paragem.

Para deixar o vale, cruza-se uma pitoresca ponte de madeira, sob a qual o ribeiro de Beredo corre furiosamente, espumando-se contra os penedos que lhe barram a passagem, e deixa-se para trás os prados sombreados com a sua peculiar herpetofauna. Com efeito, para poder apreciar convenientemente esse fascinante universo que é o dos répteis e anfíbios, nada melhor do que munir-se de um bom guia e passar umas horas a esquadrinhar estes prados húmidos. Com alguma sorte poderá encontrar algumas espécies mais comuns por estas paragens, como o lagarto-de-água (Lacerta schreiberi) ou o licranço (Anguis fragilis) ou mesmo espécies mais raras como a cobra-de-pernas-pentadáctila (Chalcides bedriagai), um endemismo ibérico que na verdade mais não é que um inofensivo lagarto de corpo cilíndrico e alongado com membros reduzidos e que em Portugal se encontra circunscrito a pequenos e isolados núcleos populacionais.

Com passadas largas, galga-se o carreiro e depressa nos elevamos acima do bosque, na vertente oposta do vale. À volta, a paisagem permanece imutável. A mesma quietude, as mesmas serras cinzentas e tristes e, no prolongamento do olhar, a aldeia enegrecida de Pitões, aconchegada, suavemente, aos prados que escorrem da Mourela. O caminho que agora se estende pela encosta pedregosa, marcado aqui e ali pelas tradicionais mariolas dos pastores, é impiedoso e força a uma subida extenuante. O esforço permanente obriga a algumas paragens breves, refrescadas com a água cristalina das ribeiras que connosco se cruzam. De quando em vez, o percurso revela, a quem souber atentar, vestígios da vida selvagem que povoa estes alcantis: o dejecto de um lobo (Canis lupus) numa encruzilhada de carreiros; a marcação de um corço (Capreolus capreolus) num galho jovem de salgueiro; ou o trilho fresco deixado por uma família de javalis (Sus scrofa) na sua demanda por alimento. Volvidos os últimos metros surgem, finalmente, os degraus talhados no monstruoso monólito da fraga de São João que haverão de levar os caminheiros aos panoramas sublimes das alturas. E que panoramas esses! A capelinha, branca e resplandecente, cuja sombra estreita reconforta os corpos acalorados, abre as portas para um imenso e deslumbrante panorama: para poente, os reflexos azulados da albufeira da Paradela, cujos braços se estendem montanhas adentro, para preencher as reentrâncias entre os montes; em frente, na direcção do sol-nascente, são as cristas alterosas e imponentes da serra do Gerês que se alongam, aparentemente, sem fim; enquanto do lado oposto do vale do Beredo, agarrada aos seus lameiros, no planalto da Mourela, é a aldeia de Pitões que se espraia, pitoresca, deixando entrever o caminho estreito e sinuoso por onde os caminheiros lhe hão-de aceder.

 

A paragem é curta. Contorna-se a fraga a poente e avança-se rumo a sul, para as margens da Paradela, por entre espectaculares blocos graníticos plantados entre matos de giesta (Cytisus striatus ssp eriocarpus) e carqueja (Chamaespartium tridentatum) entre os quais floresce, por alturas de Maio, uma das mais belas e raras flores da nossa flora: o lírio-do-Gerês (Iris boissieri), uma espécie endémica do noroeste da Península Ibérica e exclusiva da serra do Gerês onde ocorre em fendas de rochas, em zonas montanhosas incultas e pedregosas de solos ácidos entre os 600 e 1300 metros de altitude.

Aqui as árvores são raras e confinam-se a pequenos vales abrigados entre as cumeadas despidas como oásis no deserto tornando os quilómetros que se seguem ainda mais árduos. A um monte segue-se um vale profundo, um estreito fio de água e um nunca mais acabar de sequências semelhantes pelos montes e vales vizinhos. Mas qualquer viandante que se preze, sabe que mesmo a paisagem mais desolada e, aparentemente desinteressante, pode propiciar encontros imediatos com a fauna local, proporcionando momentos únicos e, quase sempre, irrepetíveis. Felizmente a Fortuna foi benévola possibilitando a visão, ainda que fugaz, de um raro tartaranhão-azulado (Circus cyaneus) que fez as delícias dos caminheiros provocando, de imediato, uma reacção em cadeia: de todas as mochilas saltaram binóculos e guias e até uma atrevida teleobjectiva tentava desesperadamente perpetuar este momento. A azáfama foi grande, mas breve. Pouco tempo depois a rapina já mais não era que um ponto diminuto entre o fraguedo da serra.

Avistamos a ponte sobre o ribeiro do Beredo a pouco mais de 1 km a montante da albufeira da Paradela, no mesmo instante em que um relinchar distante nos chamou a atenção. Mal se distinguindo entre os matos e arbustos da encosta, uma pequena manada de garranos (Equus cabalus) desaparecia assustada atrás de um cabeço próximo. Sem demoras, recolhemo-nos no frondoso carvalhal que em suaves declives inunda o vale. A tarde avançava e com ela as sombras desgarradas dos montes. Voltamos costas à albufeira da Paradela e, embrenhados no verde da mata, o percurso prosseguiu a meia encosta, em direcção à cascata de Campesinho, a porta de entrada para o velho e lendário Mosteiro Cisterciense de Santa Maria das Júnias.

 

Aos poucos, quase imperceptivelmente, o carvalhal adensa-se. Lá longe, distinguia-se já um muralhar contínuo. Lentamente, o murmúrio vai tomando forma, sobe de intensidade e, subitamente, após uma última curva, atinge o clímax ensurdecedor quando nos deparamos com a queda de água de Campesinho. Lançando-se das alturas, a água explode em torrentes sucessivas que se desfazem em milhares de pequenas gotículas que polvilham o bosque, como se de orvalho se tratasse. Uma vez mais, a paragem é curta. Não sem custo, “escala-se” o Penedo Grande e alcançam-se os lameiros da cumeada aplanada do cabeço. Quando o sol começou a aproximar-se do horizonte e a penumbra a diluir as curvas dos vales, chegamos finalmente às ruínas do Mosteiro, plantado na margem direita da ribeira de Campesinho. De pé, apenas a velha e austera igreja românica. Tudo o resto, construído em períodos sucessivos que medeiam entre o séc. XI e XVI, - o espaço conventual propriamente dito com o claustro, a cozinha e o forno ainda visíveis - mais não é que uma pálida recordação da beleza que em séculos idos parece ter engalanado este abrigo dos peregrinos de Santiago.

Hoje, as ruínas do Mosteiro apenas abrigam pequenos animais e um desejo antigo das gentes da terra de verem as promessas de recuperação e reconstrução do seu templo cumpridas finalmente. Quanto a nós, peregrinos de uma outra causa, comungados da paz deste eterno isolamento da terra de Júnias, partimos, calçada acima, com destino à aldeia de Pitões e a um merecido repouso recordando as palavras de Frei Luís de Sousa que na sua Vida de Arcebispo de 1619 apregoavam com ironia: (…) estas terras que chamam de Barroso têm um sítio tão intratável de serras e penedias, quase sempre cobertas de neve, de picos que se vão às nuvens, de brenhas tenebrosas, de vales profundíssimos e passos perigosos que mais parecem morada de feras que de homens capazes de razão e juízo (...).

 

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