Por terras de Pitões à descoberta da Serra do Gerês

Manuel Nunes (texto) e Jorge Nunes (fotografia)
Imprimir
Texto A A A

 

A paragem é curta. Contorna-se a fraga a poente e avança-se rumo a sul, para as margens da Paradela, por entre espectaculares blocos graníticos plantados entre matos de giesta (Cytisus striatus ssp eriocarpus) e carqueja (Chamaespartium tridentatum) entre os quais floresce, por alturas de Maio, uma das mais belas e raras flores da nossa flora: o lírio-do-Gerês (Iris boissieri), uma espécie endémica do noroeste da Península Ibérica e exclusiva da serra do Gerês onde ocorre em fendas de rochas, em zonas montanhosas incultas e pedregosas de solos ácidos entre os 600 e 1300 metros de altitude.

Aqui as árvores são raras e confinam-se a pequenos vales abrigados entre as cumeadas despidas como oásis no deserto tornando os quilómetros que se seguem ainda mais árduos. A um monte segue-se um vale profundo, um estreito fio de água e um nunca mais acabar de sequências semelhantes pelos montes e vales vizinhos. Mas qualquer viandante que se preze, sabe que mesmo a paisagem mais desolada e, aparentemente desinteressante, pode propiciar encontros imediatos com a fauna local, proporcionando momentos únicos e, quase sempre, irrepetíveis. Felizmente a Fortuna foi benévola possibilitando a visão, ainda que fugaz, de um raro tartaranhão-azulado (Circus cyaneus) que fez as delícias dos caminheiros provocando, de imediato, uma reacção em cadeia: de todas as mochilas saltaram binóculos e guias e até uma atrevida teleobjectiva tentava desesperadamente perpetuar este momento. A azáfama foi grande, mas breve. Pouco tempo depois a rapina já mais não era que um ponto diminuto entre o fraguedo da serra.

Avistamos a ponte sobre o ribeiro do Beredo a pouco mais de 1 km a montante da albufeira da Paradela, no mesmo instante em que um relinchar distante nos chamou a atenção. Mal se distinguindo entre os matos e arbustos da encosta, uma pequena manada de garranos (Equus cabalus) desaparecia assustada atrás de um cabeço próximo. Sem demoras, recolhemo-nos no frondoso carvalhal que em suaves declives inunda o vale. A tarde avançava e com ela as sombras desgarradas dos montes. Voltamos costas à albufeira da Paradela e, embrenhados no verde da mata, o percurso prosseguiu a meia encosta, em direcção à cascata de Campesinho, a porta de entrada para o velho e lendário Mosteiro Cisterciense de Santa Maria das Júnias.

Comentários

Newsletter