Por terras de Pitões à descoberta da Serra do Gerês

Manuel Nunes (texto) e Jorge Nunes (fotografia)
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Finalmente a mata. Maioritariamente constituída por carvalho-negral (Quercus pyrenaica), a mata do Beredo alberga outras espécies arbóreas como o carvalho-roble (Quercus robur), o freixo (Fraxinus angustifolia), a bétula (Betula celtiberica) e o azereiro (Prunus lusitanica ssp. lusitanica), para além de um luxuriante sub-bosque onde o azevinho (Ilex aquifolium), com a sua folhagem denticulada característica, partilha o espaço com a aveleira (Corylus avellana) e o abrunheiro-bravo (Prunus spinosa). Sem grande esforço alcança-se o fundo do vale. Para além do permanente muralhar das águas e do canto distintivo de alguns passeriformes ocultos entre a frondosa ramalhia, como o Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula), apenas um profundo silêncio acolhe os raros viandantes. Erguendo o olhar por entre os carvalhos altos, uma nesga de céu revela, lá nas alturas, a Fraga de São João, o próximo ponto de paragem.

Para deixar o vale, cruza-se uma pitoresca ponte de madeira, sob a qual o ribeiro de Beredo corre furiosamente, espumando-se contra os penedos que lhe barram a passagem, e deixa-se para trás os prados sombreados com a sua peculiar herpetofauna. Com efeito, para poder apreciar convenientemente esse fascinante universo que é o dos répteis e anfíbios, nada melhor do que munir-se de um bom guia e passar umas horas a esquadrinhar estes prados húmidos. Com alguma sorte poderá encontrar algumas espécies mais comuns por estas paragens, como o lagarto-de-água (Lacerta schreiberi) ou o licranço (Anguis fragilis) ou mesmo espécies mais raras como a cobra-de-pernas-pentadáctila (Chalcides bedriagai), um endemismo ibérico que na verdade mais não é que um inofensivo lagarto de corpo cilíndrico e alongado com membros reduzidos e que em Portugal se encontra circunscrito a pequenos e isolados núcleos populacionais.

Com passadas largas, galga-se o carreiro e depressa nos elevamos acima do bosque, na vertente oposta do vale. À volta, a paisagem permanece imutável. A mesma quietude, as mesmas serras cinzentas e tristes e, no prolongamento do olhar, a aldeia enegrecida de Pitões, aconchegada, suavemente, aos prados que escorrem da Mourela. O caminho que agora se estende pela encosta pedregosa, marcado aqui e ali pelas tradicionais mariolas dos pastores, é impiedoso e força a uma subida extenuante. O esforço permanente obriga a algumas paragens breves, refrescadas com a água cristalina das ribeiras que connosco se cruzam. De quando em vez, o percurso revela, a quem souber atentar, vestígios da vida selvagem que povoa estes alcantis: o dejecto de um lobo (Canis lupus) numa encruzilhada de carreiros; a marcação de um corço (Capreolus capreolus) num galho jovem de salgueiro; ou o trilho fresco deixado por uma família de javalis (Sus scrofa) na sua demanda por alimento. Volvidos os últimos metros surgem, finalmente, os degraus talhados no monstruoso monólito da fraga de São João que haverão de levar os caminheiros aos panoramas sublimes das alturas. E que panoramas esses! A capelinha, branca e resplandecente, cuja sombra estreita reconforta os corpos acalorados, abre as portas para um imenso e deslumbrante panorama: para poente, os reflexos azulados da albufeira da Paradela, cujos braços se estendem montanhas adentro, para preencher as reentrâncias entre os montes; em frente, na direcção do sol-nascente, são as cristas alterosas e imponentes da serra do Gerês que se alongam, aparentemente, sem fim; enquanto do lado oposto do vale do Beredo, agarrada aos seus lameiros, no planalto da Mourela, é a aldeia de Pitões que se espraia, pitoresca, deixando entrever o caminho estreito e sinuoso por onde os caminheiros lhe hão-de aceder.

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