O Testemunho do Vento – Descobrindo a Serra de Aire e Candeeiros

Joana Oliveira
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Sugere-se um percurso na Serra de Aire e Candeeiros, onde o vento desperta os sentidos, a água se esconde, as rochas brincam ao insólito e a aridez que nos envolve conta a história de uma serra difícil para o Homem, lentamente desbravada.

A Serra de Aire e Candeeiros é um grande bloco calcário, que se estende por 35000 hectares, definindo uma barreira física entre a Estremadura e o Ribatejo. As gentes que nesta terra desejaram viver travaram uma árdua luta para ganhar terreno ao solo rochoso, num processo de recolha de pedras para tornar os solos aráveis, e de pedra moldaram a paisagem, hoje composta por muros que se estendem num emaranhado de perder de vista, como se de uma teia de aranha se tratasse.

A geomorfologia desta serra representa o que de mais significativo existe em formações cársicas (1) no nosso país. Abrangido por grande parte da Serra de Aire e Candeeiros, o Maciço Calcário Estremenho marca 200 milhões de anos de violentos abalos sísmicos, da movimentação progressiva das placas téctonicas e da lenta erosão provocada pelas águas na macia rocha calcária.

É o mundo do silêncio. É o mundo das profundezas. É o mundo das insólitas formações rochosas. É também o mundo onde a água se esconde nas entranhas do mundo.

O fascínio das grutas, os secretos algares (2), as dolinas (3) e polges (4), os canhões cársicos (5) e os campos de lapiás (6) são manifestações naturais que nos surpreendem pela sua invulgaridade e que se multiplicam nesta serra de suaves recortes.

Mas não se podia falar na Serra de Aire e Candeeiros sem fazer referência ao Parque Natural que nela está circunscrito - o Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros – que abrange os distritos de Leiria e Santarém, os concelhos de Porto-de-Mós, Alcobaça, Rio Maior, Santarém, Torres Novas e Ourém, e que foi criado com o objectivo de preservar todo o património cársico ali existente e toda a especificidade natural, cultural e patrimonial que tem marcado o viver e o ser desta serrania.

Sugere-se, então, um percurso nesta serra onde o vento desperta os sentidos, a água se esconde e as rochas brincam ao insólito.

 

Como Chegar:
Desde Porto-de-Mós, através da EN1, seguindo em direcção a Alcanede, pela EN 243, até chegar a Chão das Pias, seguindo até Poço da Chainça, onde tem início o percurso.

1ª Etapa – Escola Primária do Poço da Chainça – Lugar da Fonte
A Escola Primária do Poço da Chainça é uma pequena escola que, como tantas outras no nosso país, evidencia os sintomas do progressivo envelhecimento das populações dos meios rurais. Actualmente poucas serão as crianças que ali iniciam os seus estudos, mas parte da escola foi aproveitada como casa abrigo do Núcleo de Espeleologia de Leiria, revitalizando parte de um edifício destinado ao abandono. Das traseiras da escola seguimos a caminhada, atravessando a estrada que nos trouxe, e seguindo em frente (NO) por um caminho de terra batida, entre muros.

Sob os nossos pés podemos observar várias lajes calcárias e zonas de olival, intercalado com bosquetes de azinheiras de pequeno porte e eucaliptos. O chilrear dos rouxinóis ou dos pintarroxos compõe a banda sonora que nos acompanha durante a caminhada.


Fotografias de José Romão

Subindo um pouco, chegamos a uma bifurcação onde, por um lado, temos uma cerca de madeira e, por outro, um estreito caminho à nossa direita. Seguimos este caminho entre muros, tomando a direcção do casario e da uvala (7), que em vários tons de verde se estende na nossa vista.

À medida que vamos descendo, podemos observar pequenas construções de pedra que servem de apoio à pastorícia e à agricultura. Esta é restringida às pequenas propriedades delimitadas por muros de pedra solta, localmente conhecidos como chousos, autênticos quebra cabeças, resultantes da retirada de pedras do solo, para que dele se possa tirar o sustento, tornando-o arável e propício à pastorícia. As referidas construções servem para arrecadar utensílios agrícolas e, simultaneamente, o abrigo de alguns animais de pequeno porte, como as simpáticas ovelhas ou as curiosas cabras que por ali pastam.

2ª Etapa – Lugar da Fonte – Subida para os Moinhos
Depois de uma descida entre muros e olivais, chegamos a uma estrada branca que iremos percorrer.

Na depressão consequente da uvala podemos apreciar a forma como os terrenos são divididos por chousos, onde predominam campos de cultivo anuais, sobretudo de batata, trigo, milho e aveia. Nestas zonas é frequente avistarem-se pequenos ouriços-cacheiros e ratos-do-campo, algumas espécies de aves, como a gralha-de-bico-vermelho e do peneireiro-de-dorso-malhado, que ali vão no Outono para se alimentarem dos restolhos, e também pequenos répteis.

Carvalhos frondosos, azinheiras e oliveiras, estas últimas marco do processo de humanização levado a cabo pelos monges de Císter de Alcobaça, no decorrer do século XVII, fazem parte da paisagem deste troço. Poderemos também apreciar a arquitectura de algumas casas que permanecem com a sua traça primitiva – a sua simplicidade e despojo denunciam o meio pobre onde se inserem, marcado pela ausência da água e pela escassez de solo arável.

Seguimos, calmamente, pela estrada branca entre muros até chegarmos a um espaço onde o chão se transforma numa laje imensa e formações rochosas, que evocam possíveis cenários da lua, afloram à superfície – são os campos de lapiás. Este espaço terá sido utilizado como eira, mas actualmente é só mais um dos pontos de passagem do nosso percurso, que prossegue, tendo como destino o Cabeço dos Carvalhos, onde se encontram altaneiros três moinhos.

 

Ali chegados, após uma subida exaustiva, podemos apreciar a vasta paisagem que se nos afigura: o castelo de Porto de Mós e as suas torres azuladas, bem como a pacata vila que se estende nas suas encostas.

É tempo agora de apreciar os moinhos de pedra, testemunhos da importância que a moagem teve na economia destas populações serranas, alguns, lamentavelmente, num estado avançado de ruína. Mas não será difícil imaginá-los com as suas velas brancas a rasgarem os céus e, com alguma sorte, algum deles encontrar-se-á aberto para podermos apreciar o que resta das roldanas e mós que outrora ajudaram a moer a farinha, que, seguramente, fez pão a muita gente.

Ainda no Cabeço dos Carvalhos é também de apreciar uma construção de pedra utilizada como eira e cisterna. Devido à grande permeabilidade dos solos calcários, que torna a água escassa à superfície, foram criadas as cisternas como meio de aproveitamento das águas pluviais.

3ª Etapa – Cabeço dos Carvalhos – Fórnea – Escola Primária de Chão das Pias
É tempo agora de descermos o monte dos moinhos e andar um pouco pela estrada de alcatrão (direcção SE), até encontrarmos um pequeno atalho do nosso lado esquerdo, o qual tomamos.

Mais uma vez a paisagem se vai compondo de chousos, que simbolizam também o início da apropriação das terras, que até alguns séculos atrás não pertenciam a ninguém, quando o principal meio de sustento era a caça, a pastorícia e a apicultura. Com a introdução de técnicas agrícolas, cada pedaço de terra arável passou a ter grande importância, e o ofício de encaixar as pedras calcárias que abundavam naquela serra, para dela delimitar os terrenos e torná-los aráveis, tornou-se no factor de humanização mais marcante desta paisagem.

E assim continuamos entre muros, que encerram campos verdejantes, onde vacas pastam serenamente, e o tempo tem o seu próprio tempo.

Não se espante se durante a sua caminhada encontrar fósseis de fauna e flora marítima. Estes são provenientes de depósito sedimentares no fundo dos oceanos, que com os movimentos das placas continentais oceânicas emergiram após milhares de anos.

Vamos subindo pelas encostas até nos depararmos com uma formação que serve, por si só, de motivo de visita – a Fórnea. Nome popular que deriva de forno, a Fórnea é um grande anfiteatro natural resultante da erosão cársica, onde os seus 525 metros de encosta abrupta constituem uma das formações geomorfológicas mais interessantes do parque natural. Vale a pena aproveitar para sentir o vento, apreciar o silêncio e a grandeza da Natureza.

Continuamos entre muros até à pequena localidade de Chainça, e daí seguimos novamente até à escola primária, onde damos por terminado o nosso percurso.

No Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros pode também visitar: as Salinas de Fonte da Bica em Rio Maior, que são as únicas não marítimas no nosso país; as grutas de Stº António, Mira d’Aire e o Algar do Pena; os Olhos de Água na nascente do Rio Alviela, que abastece de água grande parte de Lisboa.; as Polges de Minde e Alvados; as Dolinas do Arrimal; o Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios e a Reserva de Burros.

Estas são, sem dúvida, razões mais do que suficientes para desejar conhecer esta zona tão peculiar do nosso País e para aliar o pretexto de uma caminhada, que é sempre saudável, a um fim-de-semana diferente.
 
(1) Formações Calcárias;
(2) Aberturas naturais de progressão vertical, que originam grutas. Só na Serra de Aire e Candeeiros são mais de 1500;
(3) Depressões de forma circular e de fundo preenchido por sedimentos, mais largas do que profundas, que podem eventualmente estar ligadas a um algar;
(4) É também uma depressão de fundo plano, resultante da corrosão das rochas de vertentes abruptas, onde desaguam as águas existentes nas nascentes ubterrâneas, formando, geralmente no Inverno, grandes lagos na sua depressão;(5) Gargantas profundas talhadas na rocha por cursos de água, cuja origem é externa e que se afundam no seu leito;
(6) Formas resultantes da dissolução da rocha por infiltração de água, que confere à paisagem aspecto árido.
(7) Formação cársica que se assemelha a um vale, resultante da coalescência de dolinas.

 

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