O Testemunho do Vento – Descobrindo a Serra de Aire e Candeeiros

Joana Oliveira
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Ali chegados, após uma subida exaustiva, podemos apreciar a vasta paisagem que se nos afigura: o castelo de Porto de Mós e as suas torres azuladas, bem como a pacata vila que se estende nas suas encostas.

É tempo agora de apreciar os moinhos de pedra, testemunhos da importância que a moagem teve na economia destas populações serranas, alguns, lamentavelmente, num estado avançado de ruína. Mas não será difícil imaginá-los com as suas velas brancas a rasgarem os céus e, com alguma sorte, algum deles encontrar-se-á aberto para podermos apreciar o que resta das roldanas e mós que outrora ajudaram a moer a farinha, que, seguramente, fez pão a muita gente.

Ainda no Cabeço dos Carvalhos é também de apreciar uma construção de pedra utilizada como eira e cisterna. Devido à grande permeabilidade dos solos calcários, que torna a água escassa à superfície, foram criadas as cisternas como meio de aproveitamento das águas pluviais.

3ª Etapa – Cabeço dos Carvalhos – Fórnea – Escola Primária de Chão das Pias
É tempo agora de descermos o monte dos moinhos e andar um pouco pela estrada de alcatrão (direcção SE), até encontrarmos um pequeno atalho do nosso lado esquerdo, o qual tomamos.

Mais uma vez a paisagem se vai compondo de chousos, que simbolizam também o início da apropriação das terras, que até alguns séculos atrás não pertenciam a ninguém, quando o principal meio de sustento era a caça, a pastorícia e a apicultura. Com a introdução de técnicas agrícolas, cada pedaço de terra arável passou a ter grande importância, e o ofício de encaixar as pedras calcárias que abundavam naquela serra, para dela delimitar os terrenos e torná-los aráveis, tornou-se no factor de humanização mais marcante desta paisagem.

E assim continuamos entre muros, que encerram campos verdejantes, onde vacas pastam serenamente, e o tempo tem o seu próprio tempo.

Não se espante se durante a sua caminhada encontrar fósseis de fauna e flora marítima. Estes são provenientes de depósito sedimentares no fundo dos oceanos, que com os movimentos das placas continentais oceânicas emergiram após milhares de anos.

Vamos subindo pelas encostas até nos depararmos com uma formação que serve, por si só, de motivo de visita – a Fórnea. Nome popular que deriva de forno, a Fórnea é um grande anfiteatro natural resultante da erosão cársica, onde os seus 525 metros de encosta abrupta constituem uma das formações geomorfológicas mais interessantes do parque natural. Vale a pena aproveitar para sentir o vento, apreciar o silêncio e a grandeza da Natureza.

Continuamos entre muros até à pequena localidade de Chainça, e daí seguimos novamente até à escola primária, onde damos por terminado o nosso percurso.

No Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros pode também visitar: as Salinas de Fonte da Bica em Rio Maior, que são as únicas não marítimas no nosso país; as grutas de Stº António, Mira d’Aire e o Algar do Pena; os Olhos de Água na nascente do Rio Alviela, que abastece de água grande parte de Lisboa.; as Polges de Minde e Alvados; as Dolinas do Arrimal; o Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios e a Reserva de Burros.

Estas são, sem dúvida, razões mais do que suficientes para desejar conhecer esta zona tão peculiar do nosso País e para aliar o pretexto de uma caminhada, que é sempre saudável, a um fim-de-semana diferente.
 
(1) Formações Calcárias;
(2) Aberturas naturais de progressão vertical, que originam grutas. Só na Serra de Aire e Candeeiros são mais de 1500;
(3) Depressões de forma circular e de fundo preenchido por sedimentos, mais largas do que profundas, que podem eventualmente estar ligadas a um algar;
(4) É também uma depressão de fundo plano, resultante da corrosão das rochas de vertentes abruptas, onde desaguam as águas existentes nas nascentes ubterrâneas, formando, geralmente no Inverno, grandes lagos na sua depressão;(5) Gargantas profundas talhadas na rocha por cursos de água, cuja origem é externa e que se afundam no seu leito;
(6) Formas resultantes da dissolução da rocha por infiltração de água, que confere à paisagem aspecto árido.
(7) Formação cársica que se assemelha a um vale, resultante da coalescência de dolinas.

 

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