Trilhos de Natureza pelo Cabo da Roca

Texto de Carlos Neves, fotos de José Romão
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O Cabo da Roca, o ponto mais ocidental do continente Europeu, reúne uma admirável beleza paisagística a um excepcional valor ambiental, sendo certamente um local que merece uma visita guiada. Sugerimos-lhe trilhos que vale a pena seguir.

Mito famoso por ser o local mais ocidental do continente europeu, o Cabo da Roca, também denominado “Focinho da Roca” pelas gentes ligadas às coisas do mar, e mais poeticamente por “Promontório da Lua”, integra-se no Parque Natural de Sintra Cascais, o qual engloba uma vasta área de interesse natural e beleza paisagística que vai desde a Cidadela de Cascais até à foz do rio Falcão.

Da praia do Abano à praia da Adraga, passando pelo Cabo da Roca, encontramos inúmeros aspectos de interesse biológico, geomorfológico e até arqueológico, que se podem descobrir caminhando pelas arribas cortadas por vezes por estreitos percursos de água que se dirigem a pequenas praias, algumas delas um pouco escondidas e de difícil acesso, despertando assim, ainda mais a nossa curiosidade. Seria impossível apreciar tudo isto num só dia! A sua beleza, diversidade florística e faunística e a sua geologia, merecem ser apreciadas com tempo e calma. Existem pois, motivos, não só para uma, mas para várias visitas a esta área do Parque Natural.

Propício para o fotógrafo e o amante da natureza que gosta de caminhadas, mas com lugar também para outras actividades mais radicais como o mergulho, surf, escalada, orientação e desportos não motorizados de duas rodas.

COM SINTRA PELO CAMINHO

Podemos desde logo aproveitar a pequena viagem de Lisboa e torna-la numa descoberta, pois existem várias maneiras de lá chegar. E vale a pena dar uma volta maior, demorar um pouco mais e apreciar a paisagem e até parar numa das vilas para apreciar os famosos pastéis, e travesseiros de Sintra entre outras guloseimas da doçaria local.

Um dos mais bonitos percursos que se pode fazer é contornar a serra pelo Norte. Seguindo pela IC19 até Ranholas mas seguindo em frente na rotunda, em direcção a Sintra. De Sintra seguimos em direcção a Colares, por uma estrada muito pitoresca e cheia de curvinhas ladeada por diverso arvoredo, bonito de se ver num fim de tarde, quando a luz dá um tom quente à folhagem em contra luz. Acompanhando esta estrada existe a antiga linha de caminho de ferro (dos eléctricos), que está a ser reabilitada para fins turísticos, e que levava os habitantes de Sintra à Praia das Maçãs. Chegando a Colares, viramos para Sul, seguindo pela estrada que passa pela a Azóia e nos leva, sem engano, ao Cabo da Roca.

Existe um rotunda mesmo no fim da estrada, onde podemos deixar o carro e iniciar o nosso percurso a pé. Uma das primeiras coisas a visitar é o farol e o cruzeiro que fica na pontinha do cabo. Tem-se daí uma espectacular vista, principalmente para norte, das praias da Aroeira e da Ursa.

A MALHADA DO OURIÇAL

Para chegarmos ao trilho da Malhada do Ouriçal, que se faz com pouca dificuldade, descemos ao longo da costa, em direcção a sul, pelas escarpas, indo dar a um ribeiro que cai em cascata para a praia. Podemos aí virar à direita, onde há uma descida. A partir daqui, a descida faz-se com mais cuidado, pela rocha abaixo. A malhada é o nome que se dá a uma praia de calhaus, sem areia. Da praia avistamos algumas rochas muito fotogénicas emergindo do meio do mar. Se a maré estiver vazia podemos passar para norte, e fazer um caminho diferente de volta até ao cabo. Por aqui deparamos com grandes pedras ali caídas, com umas pequenas figueiras nascidas no meio, e por onde se pode subir. Aí encontramos durante boa parte do ano o cravo Dianthus cintranus que só existe no Cabo da Roca. É preciso ter cuidado para não os pisar, não só por que são bonitos e por respeito à Natureza, mas também porque estão em perigo de extinção, sendo por isso uma espécie protegida por lei. Existe um trilho sempre a subir que nos leva até à parte mais escarpada da falésia e aí, com ajuda duma corda que ali existe, podemos subir. Esta última parte do percurso é um pouco mais difícil para os menos ágeis, mas ainda assim, acessível.


Fotografias de José Romão

DO CABO DA ROCA À PRAIA DA AROEIRA

Este percurso, que vai do Cabo da Roca à praia da Aroeira começa precisamente onde acaba o anterior. Partindo do cruzeiro no Cabo da Roca, seguimos para sul, sempre junto da falésia, com atenção, para que possamos descobrir o acesso, que é pouco visível. Pode parecer inacessível e impossível de descer por ali, mesmo com a tal corda, mas é precisamente por aí que temos de seguir. Também devemos estar preparados, logo à partida, para alguma dificuldade. Este percurso demorara cerca de três horas e deve fazer-se quando a maré está a vazar. Descemos, por um carreiro que vira para norte. É interessante por ali andar, para cima e para baixo com aquela vista, do miradouro e alguns rochedos no meio do mar... Depois da malhada do Cedouro vamos ter de passar mesmo junto ao mar sobre rochas onde, por vezes, com a maré vazia, podemos encontrar milhares de caranguejos e uma multitude de calhaus cobertos de algas. Um pouco mais à frente surge a pequena praia da Aroeira. Quando a areia está mais plana, junto ao mar, a maré deixa um largo espelho de água onde se captam alguns bonitos reflexos. Podemos percorrer a praia até ao fim, para norte, onde existe uma curiosa pedra em arco e, acima, a Pedra do Cavalo. Regressamos recuando um pouco até ao fim da praia da Aroeira, por um estreito trilho de dificuldade média que sobe a falésia pelo vale. Chegando ao cimo encontramos uma estrada de terra batida por onde voltamos virando a sul, ou que podemos seguir, indo um pouco mais a norte, onde se nos propicia uma vista sobre a Praia da Ursa.

 


Fotografias de José Romão

A PRAIA DA URSA

Depois da Azóia e um pouco antes do Cabo da Roca, situa-se, à direita, um desvio de terra batida assinalado por uma placa que nos leva à “Ursa”. Este caminho é pouco acidentado, mas aconselha-se algum cuidado, caso não tenha um TT. Este caminho leva-nos a um ponto, no cimo dum monte, onde se pode deixar o carro. Depois, descemos por um trilho pedreste lindíssimo, onde já se avista a Pedra da Ursa e o Gigante. Rochedos enormes, isolados da falésia pela acelerada erosão marítima. Mais no fim do carreiro, temos de descer por umas rochas à direita, em direcção ao vale e à ribeira que aí passa. Esta ribeira também vai dar a uma cascata sobre a praia da Ursa. Para continuar temos que atravessar a ribeira para norte e depois outra vez para sul. Contornamos depois essas pedras, pelo lado norte, em direcção à praia.


Fotografias de José Romão

A praia da Ursa já tem um areal e como é relativamente conhecida e bonita, não é raro encontramos outros visitantes, especialmente nos meses mais quentes. É uma praia muito fotogénica que vale a pena explorar quer a norte, onde existe uma invulgar inclusão de calcário na encosta granítica, um arco na Pedra da Ursa, muitos calhaus e até uma pequena gruta, quer a sul, onde também existe uma zona rochosa muito interessante com poças de água na maré baixa. Aí na parte sul da praia, onde a areia acaba, existe um carreiro que sobe ao longo do vale na falésia e se pode fazer em cerca de vinte minutos, levando-nos de volta.

Contudo, já não será possível contemplar todo o esplendor da “Pedra da Ursa”. No passado dia 23 de Abril de 2011, parte desta rocha desmoronou-se. Com a queda das rochas, a zona à esquerda da antiga escada de corda ficou danificada pelo que se aconselha alguma prudência durante a visita à praia. 

Alguns dados interessantes do Cabo da Roca:

Latitude: 38º 47’ Norte (aprox. a mesma da cidade de Washington)

Longitude: 9º 30’ Oeste

Um dos pontos mais altos do litoral português: cerca de 150 metros.

Clima: Mediterrâneo húmido.


Fotografias de José Romão  
 
Fotografias de José Romão

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