Serra de S. Macário - viagem ao Jardim da Pena

Manuel Nunes (texto) e Jorge Nunes (fotografia)
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No maciço da Gralheira, região de S. Pedro do Sul, sugerimos uma caminhada pela Serra de S. Macário, terra de frondosas matas e de aldeias quase vazias. Vale a pena conhecer, cada vez com mais urgência, a sua beleza e história.

Na região de S. Pedro do Sul (Viseu), na serra de S. Macário, em pleno maciço da Gralheira, existe um esquecido pedaço de terra onde velhas aldeias, quase desertas, e frondosas matas autóctones, se debatem por travar a lenta, mas inexorável, marcha da desertificação.

Se algum dia tiver intenções de visitar a serra de S. Macário, então aceite um conselho: faça-o bem cedo, se possível ao raiar do dia. Só assim poderá desfrutar de um espectáculo incrivelmente belo e grandioso. Assim que os primeiros raios de luz despontam no horizonte, o espectáculo começa. Lentamente, as serras que povoam todo o horizonte perdem os tons cinzentos e baços e ganham tonalidades violetas e azuis. O céu, ainda escuro e pleno de pontos cintilantes, levanta o véu empurrado por um clarão que surge a nascente. Sorrateiramente, as manchas brancas de nevoeiro matinal esgueiram-se pelos vales como tentáculos de um gigantesco ser vivo que se espreguiça. Finalmente, quando o disco luminoso se ergue acima do horizonte, atinge-se o clímax: a serra explode em sons e melodias de seres alados, as cores até aí esbatidas adquirem vida própria e o dia começa.

A pé, naturalmente, começamos então a viagem. Primeiro ponto de paragem: alto de S. Macário, junto à curiosa capela do lendário Homem Santo e agora padroeiro da serra. A estrutura, um singelo e austero rectângulo caiado de branco com uma fachada aperaltada com dois obeliscos em granito e uma cruz em ferro, pode causar alguma estranheza a caminheiros menos informados, por se encontrar cercada por um muro em xisto que a oculta completamente até à altura do telhado. O facto, contudo, deve-se, tão-somente, à necessidade de proteger a estrutura dos ventos ciclónicos que frequentemente assolam a serra.

Depois de visitar a capela, e antes de partir, há ainda tempo para perscrutar com os binóculos os extensos bosques de pinheiro-bravo (Pinus pinaster) nas encostas, em busca dos seus mais recentes habitantes – os esquilos (Sciurus vulgaris) – e dos sinais indeléveis das velhas aldeias que o tempo espalhou pelos vales e ladeiras da serra. Marcado o caminho no mapa, é chegada a hora de partir. Próxima paragem: aldeia da Pena.

Pena, uma aldeia de outros tempos

A aldeia da Pena é uma daquelas aldeias ditas “Históricas” que as entidades responsáveis souberam preservar e projectar nos roteiros turísticos de Verão. Por isso, quando a canícula se vai, a maioria dos turistas vai com ela deixando a aldeia entregue às suas lides de sempre, que é como quem diz mergulhada numa paz profunda e sonolenta, quebrada apenas pelo ocasional caminhar arrastado de algum dos seus oito habitantes.

 

Uma mão cheia de casas em xisto com telhados negros cor de fuligem, aninhadas no regaço apertado da cova do monte e envoltas por leiras de lameiros, hortas e bosques de carvalhos (Quercus pyrenaica e Quercus faginea) e castanheiros (Castanea sativa), eis a imagem que pode descrever, à primeira vista, a aldeia da Pena. Contudo, há mais. Há as gentes, que hoje são poucas, mas que há trinta anos eram “umas cinquenta”, conta o Sr. Agostinho, o ancião da aldeia. Da população do passado, que era a riqueza e a razão de ser da aldeia, hoje pouco resta para além das histórias, das amarguras, das alegrias e das memórias dignas de figurarem num compêndio de sabedoria popular. Hoje, já quase não se ouvem vozes nem risos. O cacarejar ocasional de uma galinha, o mugido próximo de uma vaca, talvez. Mas as vozes, só se forem as dos turistas no Verão, porque os aldeões, esses, velhos como as casas que habitam, esquecidos como o vale fundo e escondido que os abrigou da serpente, que a lenda conta tê-los martirizado, há muito que deixaram de se fazer ouvir. Até o sino da minúscula capela da aldeia, já só raramente ecoa pelo vale.

Passear pelas ruelas estreitas e pedregosas da aldeia disposta em socalcos ao longo do pequeno Ribeiro de Pena, é um mergulho no passado. Se exceptuarmos a energia eléctrica que aqui chegou na década de setenta e cujos cabos ondulam mortiços sobre as ruas, então talvez a imagem actual da aldeia fosse igual à de então: isolada, auto-suficiente, bela mas amargurada pela árdua labuta da terra, pela penúria e até pela fome. Ontem, como hoje, a vida na Pena é feita de trabalho e esperança. Trabalho para manter o corpo são e esperança para encarar o futuro.

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